domingo, 10 de março de 2013

Crônica 75: Sobre orgulho, escritas e uma pitadinha de Nietzsche



Entrou. Sentou. Escreveu. Escreveu. Escreveu.  Parou. Deu um gole delicado em mim. Colocou-me de volta no pires. Olhava para frente. Em sua cara uma expressão indefinida. Talvez uma mistura de sentimentos. Confusão. O jovem acariciou minha xícara. Mexeu com a colher. Dobrou o guardanapo. Tudo em ato contínuo. Sem perceber que se movimentava.

Estava absorto. As lembranças roubavam-lhe o presente. Lembranças, essas, não tão boas como gostaria. No entanto, tinham cheiro. Gosto. Som. Forma. Nome.  E, principalmente, expressão. Não conversamos. Ele considerava mais fácil escrever. Era daquelas pessoas que encontram no papel um consolo. Um território neutro. Uma forma de soltar. Deixar fluir. Sua vida. Seus amores. Seus encontros. Desencontros. Ele estava impresso. Ou, pelo menos, digitado e transcrito.

Não era fácil ser assim. Mas tudo bem. Curioso como sou, dei uma espiadela nas letras rabiscadas por aquele indivíduo de mãos aflitas. E olhos diáfanos. Seu mote era justamente a linguagem. Mais que isso sua forma. Mas, novamente parou. Ainda não havia saído do título. Escrevia. Riscava. Apagava. Reescrevia.
“Orgulho”. Era seu título. Como ele nos faz surdos aos próprios pensamentos. Aos próprios sentimentos. Bebericava sua segunda xícara de mim. As ironias e risadas descontextualizadas decorrente do que, pra ele, era o mais vil dos sentimentos.

Mais do que isso a cegueira ao outro. À vida do outro. Ao existir. O entender que ninguém está pronto. Acabado. Somos histórias em eterno desenvolvimento. Caindo no lugar comum, somos como o mar. Ora revolto. Ora calmo. E em alguns instantes recuamos tanto. Perdemos tanto de nós mesmos. Que só pode acontecer um tsunami ou algo do gênero.

Parou novamente. Sentiu-se confuso. Culpado em suas reflexões. Por, talvez, não ser tão diferente assim. Por mesmo triste saber que poderia cometer o mesmo erro. Mas era humano. Sentiu-se traído por si mesmo. Corresponder aos ideais de outrem não havia sido uma boa idéia. Tentara ser outro. Soara falso. Tentara ser ele mesmo. Soara agressivo. Por fim, optou por não ser.

E, então, lembrei de Nietzsche, quando disse em A Gaia Ciência... “Não te enchas de ar: a menor piscadela te esvaziaria”. E ele não pode ser tudo. Esvaziou-se.




Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        Março/2013

7 comentários:

Ivo Cardoso disse...

Bom, gostei. Tem estilo.

Jornal Mundo Jovem (PUCRS) disse...

Oi, Mariana,
Parabéns pela crônica!!!!
Um abraço da Equipe do jornal Mundo Jovem

Carlos Augusto disse...


Tenho lido o seu "cafezinho" mas ele está um tanto diferente e me parece meio "amargo" , mudança de estilo?

Eu aprecio um cafezinho sem açúcar mas nem tanto !!!

Vera disse...

Será que esse cafezinho está tristinho com as histórias que ouve?

Carlos Mercuri disse...

Humano, demasiadamente humano...

Tally M. disse...

que lindo!

Anônimo disse...

Adorei... maravilhoso!