segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Crônica 89 - Entre Seguranças, Incertezas e Ironias




 
Aquela era uma mesa animada. Cheia de gente. Todos jovens. Cheguei ao final da conversa. Junto com a conta. Quem me chamou foi um rapaz muito bonito que conversa com outro nem tão bonito assim. Mas tinha lá seu charme. O assunto era orientações sexuais.

- Nunca entendi por que alguns caras não aceitam ter amigos gays. Eu tenho um monte e gosto de mulher. Isso não me incomoda em nada... - Dizia o mais garboso dos amigos.

- Também nunca entendi.

- Deve ser insegurança... Só pode...

- Ah é. Eu mesmo sou tão seguro da minha orientação que não tenho medo nenhum. Tenho amigos gays, heteros e tudo bem. Gosto dessa diversidade.

- É assim que tem que ser. Só assim para entender o mundo de forma mais completa.

- Sou tão seguro que até já fiquei com outros homens, sabe? E nada mudou pra mim. Continuo heterossexual como sempre fui!

Ooops... Momento de silêncio. Nosso amigo mais bonito ficou um pouco confuso. Não sabia muito bem o que dizer. O rapaz passou as mãos nos cabelos. Olhou pro seu interlocutor. Deu gole em mim. Como se procurasse uma inspiração. Devolveu-me ao pires, minha zona de conforto. E em seguida disse com um leve sorriso de canto de boca.

- É, amigo, isso que é segurança...!

Conta paga. Todos levantaram. Foram embora. E eu fiquei. Dei uma irônica risada de café. Meu amigo querido e companheiro, talvez você não conheça minha risada. Mas acredite, ela existe. O que dizer? Esse cafezinho ouve cada uma...
 
 Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
 Dez2013
 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Crônica 88 - Entre bochechas rosadas e línguas de fora


Não sei se comentei. Mas, agora há no meu café um espaço dedicado aos cachorros. Fica do lado de fora do café. Assim, além de se sentar à mesa com seu pet, o cliente também pode sentar em uma das poltronas espalhadas sobre um amplo gramado e deixar seu bichinho solto. E é claro eu também sou servido lá. Até porque, é um espaço aberto onde fumar é permitido. Faço o maior sucesso. Eu e o cigarro somos amigos de longa data, vocês sabem, né?

Nesse dia, eu estava lá tranquilo. Fui convidado por uma grande amiga. Frequentadora antiga. O cãozinho dela é um pouco hiperativo. Já me derrubou algumas vezes com o seu agitado rabinho. Mas é um fofo. Parece de pelúcia.

Estávamos lá, sossegados, quando de repente entra um bebê. Tinha pouco mais de 2 anos. Ele vinha segurando no dedo da mãe. Um pouco cambaleante pela inexperiência em andar. Muito risonho. Dava aquelas risadas que só os bebês têm. Na sua camiseta lia-se: "Eu amo meu cachorro e o seu também".

Houve uma aproximação delicada. O cão e o bebê tinham mais ou menos a mesma altura. O que encantou ainda mais a criança. Fiquei com medo. Sabe como é criança. Pra fazer carinho elas batem. Puxam o rabo. A orelha. Mas nem a mãe, nem a dona estavam preocupadas.

E foi incrível. Foi tanto rabo. Tanta mão. Tanta lambida. Tanto beijo. Já não se distinguia mais quem era a criança e quem era o cachorro. Rolaram no chão até ficarem exaustos. Deitaram ali mesmo. Na grama. Deitaram com cumplicidade.

Cada um com a cabeça para um lado. Mantiveram patinhas e pezinhos encostados. A mãe e a dona tiraram fotos e mais fotos. Um com bochechinhas rosadas. O outro de língua de fora. Os dois igualmente felizes e... Cansados.

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
 Dez2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Crônica 87 - Entre gravatas vermelhas e uma opinião

Mais um dia começa. E o meu pessoal começa a chegar. Limpa. Cozinha. Arruma. Na cozinha o radinho de pilha está sempre ligado em alguma estação AM. Ouço notícias. Desgraças. Histórias. Previsão do Tempo.
Logo chegam meus primeiros clientes. Dois amigos. Dignamente arrumados. Terno preto. Gravata vermelha. Cabelos engomados. Sapatos envernizados. Suspeito que seja algum tipo de uniforme.
Todos os dias, às 8 horas em ponto, eles sentam em uma mesa quadrada. Sempre a mesma. Como num balé, colocam as pastas brilhantes na cadeira vazia. Abrem as pastas. Retiram os celulares. Checam notícias. Emails. Redes sociais. E, finalmente, colocam os aparelhos sobre a mesa. Já disse em outras oportunidades que não gosto destes aparelhinhos. Me incomodam. Vibram. São chatos.
O rapaz mais magro estende a mão para o alto. Estala os dedos e o garçom já sabe o que eles desejam. Um café, um suco de laranja e dois pães com manteiga na chapa. Enquanto me arrumo na bandeja, ainda sonolento e preguiçoso os dois iniciam uma tímida conversa. Insossa e sem graça. O chamado papo de elevador.
Invariavelmente, o primeiro tema abordado é o tempo. Por incrível que pareça o rapaz mais rechonchudo sempre reclama. "Nossa, hoje tá muito quente" ou "Credo, que frio é esse?" ou ainda "Esse tempo ameno? Não se sabe se está frio ou calor, não gosto".
O magrinho apenas ouve. Concorda com tudo. O próximo assunto é o café. Sim, eu mesmo. Tem gente muito cara de pau. E o gordinho é um desses, sempre reclamando de mim. "Está me queimando de tão quente". "Mas o que é isso? Veio gelado". "Pouco leite". "Muito leite". E por aí vai.
- O pão está bom? - pergunta o nosso esguio e calado amigo.
- Sim. Podia ter mais manteiga. Está um pouco seco. Mas dá pra comer.
- Hum... Que bom - responde o outro virando um pouco os olhos e soltando um discretíssimo suspiro.
Por último há sempre uma piada sem graça. Da qual o magrinho ri muito e o gorduchinho acredita que é bom em anedotas. Nesse dia o mais silencioso dos dois resolve falar:
- Nossa, Renato, estou tão cansado hoje. Acho que dormi mal. Sabe quando você já acorda cansado? Vai ser um dia daqueles, nem começou e eu já quero que termine.

- Credo Álvaro! Vai procurar um psicólogo, cara! Você reclama demais! Não dá pra apenas agradecer o trabalho que tem? Eu, hein?

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
 Dez2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Crônica 86 - Sobre Projetos, Vidas e Diferenças




Chegou. Correndo. Colocou suas coisas em cima da mesa. Fez sinal para o garçom. E disparou para o banheiro. Eu cheguei com a mesa ainda vazia. Aquilo me deu uma curiosidade... Enfim, esperei que voltasse do banheiro para que pudesse conhecer meu novo interlocutor. Voltou. Tinha cabelos compridos. Batom nos lábios. Brincos enormes. E um óculos de sol,  grande e quadrado. Imediatamente pensei: "uma mulher". Suas mãos se aproximaram de mim. Unhas longas e pintadas de azul-céu. Muitos anéis nos dedos.


Sabe, além de bocas, eu também conheço bem as mãos. Minha xícara e as mãos são intimas. Eu sei muito de uma pessoa só pela forma de segurar minha xícara. E, dessa vez, senti algo diferente quando ela pegou delicadamente na minha asinha. A pele dessa mão era grossa. Não correspondia às suas características visuais. Eram mãos ásperas.


Mas vai saber, ela podia ter um ofício que exigisse muito de suas mãos. Talvez não cuidasse delas. De qualquer forma era diferente. Estávamos em silêncio. Ela me ergueu do pires. E foi lentamente levando-me à sua boca. Nesse caminho consigo saber muito mais sobre meus queridos companheiros. Vi que ela não tinha seios. Sua pele do rosto era mais grossa e havia abusado da base na maquiagem. Quando cheguei à sua boca vermelha tive certeza: Não era uma mulher.


Interessante. O inusitado também acontece comigo. Engraçado como o ser humano é complexo. Nós cafés somos apenas cafés. Homens e mulheres não. Vocês nascem como um projeto inacabado. No entanto, o próprio ser humano não consegue entender isso. Muitos olharam. Comentaram. Fizeram piada. E ela lá. Firme. Tomou seu café tranquilamente. Pagou. Pegou sua bolsa Chanel e foi embora.

E deixou, para quem ficou, um delicioso perfume no ar e uma xícara imensa repleta de algo chamado reflexão. Sim. Nos deixou refletindo sobre as novas configurações. Sobre as novas formas de ser. Existir. As novas formas de se mostrar ao mundo. Sem medo de ser diferente. Desejando apenas ser humano.

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
 Nov/2013

domingo, 3 de novembro de 2013

Crônica 85 - Sobre Beagles, Ídolos e Moda


Era um lindo domingo de sol. Ela chegou com sua cadelinha. As duas já são minhas conhecidas. Eu já sei que Ela tem todo um ritual a cumprir antes de sentar. Primeiro passo, colocar a bolsa sobre a mesa. Segundo passo, amarrar a cadelinha à sua cadeira. Terceiro passo sentar. É nesse ponto que ela se vira, chama a garçonete e diz: "um cafezinho, por favor... Ah! Você pode trazer um pouco de água para a minha cachorrinha? Obrigada!". É nesse ponto que eu entro.

Tudo tranquilo até aqui. Cheguei quentinho. Sentei-me junto a elas. Minha amiga estava bem. Mas um tanto quanto tristonha. Pelo que entendi teve um bom final de semana. Mas a vida não é sempre o que queremos ou planejamos. E ela é o tipo de pessoa que faz e cumpre seus planos. No entanto, dessa vez não deu.

Estava lá. Sentada. Bebericando-me aos poucos. Usufruindo do nosso momento. Aproveitando sua própria companhia. Olhava para as unhas, que haviam sido feitas um dia antes, e pensava: "Estão ótimas! Mas na terça tenho um compromisso... Talvez estraguem até lá...". Passava as mãos no cabelo. Olhava para os transeuntes.

Mas toda esta paz durou muito pouco. Sua cachorrinha. Que sempre fora apenas sua companheira. Esta semana deixou de ser apenas mais um cachorro nas ruas. Tornou-se especial. É um Beagle. E todo aquele instante de reflexão e bobeiras foi por água abaixo.

"Olha lá, um Beagle!", disse uma menina para o namorado. "Papai! Um Beagle", gritou um garotinho esfuziante. E assim foi. As mais diferentes pessoas. Nas mais diferentes idades. Todos gritavam. Apontavam. Meu Deus pensou minha companheira, mais um pouco vão pedir autógrafo. Af...!

Mas até então ela conseguia lidar. Começou a ignorar o assédio. Seguiu em seus pensamentos. Fazendo carinho em seu Beagle e se deleitando com seu segundo Cafezinho. Até que de repente se aproximou da mesa um casal. Os dois com mais ou menos 60 anos. E eles queriam conversar. "Gente, o que é isso que estão fazendo? Você viu? Chorou muito? Você ficou triste? Fico imaginando a dor que deve ter sido...

E nesse tom seguiram-se diversas perguntas. Ela não teve nem tempo de responder. Quando viu a senhora já contava sobre o câncer de uma amiga. Depois algo sobre colocar óleo no ouvido. Enfim. Distraímos-nos nesse ponto. Mas eles não foram os únicos. Um pai com uma criança. Uma família inteira. Mais idosos. E por ai vai. Todos com as mesmas perguntas.

Era como se quisessem ver o sofrimento alheio. Se quisessem fazê-la sentir-se culpada. Era uma forma questioná-la. "É claro que você ficou arrasada". Bom, se ainda não estava, esse era o momento de ficar. Este caso do Instituto Royal é realmente terrível. Mas ela já sabia. E, obviamente, sofria por eles. Mas fez o que podia. Talvez ainda não estivesse com tudo esclarecido na sua cabeça. Vai saber.

Ela não podia mais suportar aquele falatório. Era muita pressão. Talvez nem a cachorrinha estivesse aguentando. Que pressão. Só faltou alguém se sentar junto a ela na mesa. Mas isso não aconteceria. Ela não permitiria. Parecia que estavam diante de algo que nunca viram. O Beagle virou um ídolo.

Ninguém se preocupou se estava incomodando. Se ela esperava alguém. Se ela estava no telefone. Todos queriam e se preocupam apenas em estar perto de um Beagle. É triste que situação como as do Instituto Royal aconteçam. Mais triste que tantos animais sofram maus tratos. Mas os beagles são cachorros. Não são ídolos. São animais que merecem ser respeitados como qualquer outro. Este é um caso sério. Não pode virar moda.

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
Nov/2013

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Crônica 84 - A Velha e Suas Sacolas


Essa vida de Cafezinho é mesmo muito maluca. Já encontrei de tudo um pouco aqui nessas mesas. Já falei sobre pais e seus filhos. Casais em seus momentos românticos. Brigas das mais variadas. Encontros e desencontros. Crianças. Até sobre cachorros eu já conversei com vocês.
Mas tem uma amiga minha sobre a qual ainda não comentei. Sei pouco sobre ela. A única informação que tenho é que ela mora perto de mim, em um espaço minúsculo. Ela mora em um vão entre duas paredes. Fica ali quieta. Não incomoda ninguém.

Está sempre maltrapilha e carrega consigo várias sacolas. Apesar de viver em situação de rua, mantém certa dignidade. Suas roupas são limpas. E seus hábitos bastante refinados. Uma vez por semana, pelo menos, ela vem até minha casa. Senta. Espera ser atendida. E pede seu Cafezinho.

É uma daquelas companhias silenciosas. Em seus olhos vagos há um brilho que insiste em ser apagado pela vida. Mas ela não deixa. Suas mãos não são como as mãos com as quais estou acostumado. Não são mãos macias, com unhas pintadas. São mãos vividas. Digo isso não só pela idade dela, já um tanto avançada. Mas, sim, pelos calos. Pela aspereza. E contraditoriamente pela delicadeza. Pela suavidade.

É uma mulher gentil. Delicada. Atendê-la me proporciona prazer. Ela sorve cada gole como se fôssemos somente nós dois no mundo. Como se meu líquido fosse, literalmente, o "ouro negro". Negro como ela. Assume uma postura ereta. Pernas cruzadas. É "o" momento da semana dela. Faz-me sentir importante. Feliz.

Mantém sempre o olhar distante. Como se buscasse na multidão algum tipo de reconhecimento. Ela não precisa se auto afirmar. No entanto, acredito que goste de ser reconhecida como a dama que é. Por isso faz questão de se sentar comigo. Em minha casa.

Muito diferente de outras pessoas em situação de rua que passam aqui, pedem um Cafezinho e saem andando. Ela quer ser atendida. Valoriza nossa intimidade. Na hora de ir embora faz um aceno extremamente respeitoso ao garçom (coisa que nem todo mundo sabe fazer... diga-se de passagem). Pede sua conta. Paga. Levanta-se e segue seu rumo. Volta para o seu buraco. Ela e suas sacolas.

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        Agosto/2013

sábado, 27 de julho de 2013

Crônica 83 - O Café e o Zíper


Era mais um dia típico dessa grande cidade: um pouco de sol, um pouco de chuva e, por fim, muito frio.  E, como sempre em dias assim, minha casa fica cheia. Bem cheia. Chega mesmo a ter fila de espera na porta. Quando isso acontece me sinto lisonjeado. Tanta gente assim querendo passar algum tempo comigo...

No fim do dia, com aquela garoa fina caindo, as pessoas iam chegando, em geral com as mãos cheias. Atrapalhadas. E eram bolsas. Carteiras. Cartões. Tudo caindo. Casacos e guarda-chuvas também faziam parte do cenário. O clima era de ansiedade. E, por incrível que pareça, todos estão ali me procurando para... Relaxar.

Pois é. E nesse "caos" tão nosso, ele se sentou. Convidou-me a acompanhá-lo.  Colocou seu note e seu celular sobre a mesa - companhias que eu detesto - e concentrou-se. Ficamos sem nos comunicar por uns 15 minutos. Nem um gole sequer. Até que... Quando ele resolveu degustar-me... em um gesto desajeitado... derrubou minha xícara.

Ai! Foi uma cachoeira de café. Escorri pela mesa e caí no seu colo. Nesse momento, percebi que meu amigo estava com o zíper aberto. E agora? O que fazer? Eu ouço todos. Chego até seus pensamentos. Sentimentos. Mas ainda não consigo falar com eles (só com a minha interlocutora).

Sendo assim, aquela situação me deixou um pouco desconfortável. De qualquer forma, tentei abstrair. Olhei para o teto. Para a mesa ao lado. Para duas crianças que brincavam no salão, e torcia para que ele não se levantasse. Foi nesse momento que chegou um conhecido do rapaz e ele precisou se erguer. Que nervoso.

Fui de volta para o balcão. Quando cheguei lá tive uma idéia maravilhosa. Me sacudi daqui. Mexi dali e Voilá! Consegui desenhar algo parecido com um zíper na minha superfície. Quando voltei à mesa meu amigo já havia se sentado. Digitava no seu computador. Olhava seu celular. E demorou demais para me ver ao seu lado. Quando foi dar seu primeiro gole... Meu desenho tão duramente trabalhado já havia sumido.

E o tempo passou. Ele recebeu uma ligação que pareceu bastante importante. Levantou-se e foi embora. E o zíper? Bem, o zíper continuou aberto. E eu continuei na mesa. Paciência. Eu bem que tentei. E lá foi ele. Quando chegou na esquina, pude ver que outro rapaz avisou-o do incidente. Que alívio!

De qualquer forma, fica a dica: da próxima vez que for tomar seu cafezinho, olhe para ele com atenção. Talvez ele queira te dizer algo...

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        Julho/2013