quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Crônica 14: A ÁREA DE FUMANTES

Sou um café. Como é sabido. Convivo com cigarros. Fumantes. Fumaças. Eu formo uma parceria bem interessante com o cigarro. Digo parceria interessante porque a maioria dos fumantes aprecia muito a minha companhia. Gostam de sentar-se, pedir um café e consumir seu vicio. Deleitam-se com essa combinação. Valorizam-me. A cada gole.

Dia desses fui levado até a “Área de Fumantes”. Colocaram-me entre um maço de cigarros e um cinzeiro. Eles em nada me incomodam. Na mesa, duas mulheres. Pareciam felizes. Apenas colocando o assunto em dia. Uma conversa boa. Agradável. Entre uma baforada e outra um gole no meu corpo quente e espesso. O dia estava próprio para uma bebida quente e forte como eu me pretendo.

De repente, sem mais nem meio mais, aparece uma menina linda. Devia ter uns sete anos. Linda mesmo. Loirinha. Cabelos ondulados. Seus olhos azuis acinzentados. Eu já tinha visto a criança. Ela estava sentada com o pai do lado de dentro do estabelecimento. Onde é terminantemente proibido fumar. Os bichos-papões da era moderna – os fumantes – estavam bem longe deles.

Mas a pequena não estava satisfeita. Ela surgiu na mesa. Ficou olhando fixamente para a mulher que fumava. Susto. A moça imaginou ser uma visão. Uma alucinação. Olhou para a menina. Um olhar interrogativo. A menina devolveu olhar. Parada.

- O que você quer meu bem? – indagou a moça sem entender nada.

A menina nada respondeu. E continuou no mesmo lugar.

- Pois não querida? Posso ajudar-lhe em algo?

Nada. Nem um movimento sequer.

As duas não sabiam mais o que fazer. Quando...

- Por que você fuma? Meu pai disse que é muito feio fumar...

- Olha querida, é feio mesmo. Agora eu estou tentando conversar, você poderia nos dar licença? Por favor!

A menina não se mexeu. Ficou ali. Parada. Olhando fixamente para a fumante. A mulher incomodada pensou que se ignorasse a criança, talvez ela saísse. Era só uma criança. “Fique calma”, pensou. Deu um gole em mim. Um gole forte. A menina não se mexeu. Não tirou o olhar acusativo de cima da fumante.

Olhou em volta para procurar o responsável por aquela bonequinha intrometida. Achou um homem. O homem fez sinal com a mão. A menina saiu. Foi ao encontro do pai. “Ufa” pensou a mulher. Terminou de me degustar. Terminou seu cigarro. Acendeu outro. Pediu outro café. Ficou ali. Quieta com sua companheira de mesa. Restrita ao “pedaço que lhe cabe deste latifúndio”. A área de fumantes.



Mariana Primi Haas - MTB 47229 
Agosto/2008

5 comentários:

luiz galvão disse...

bom, anrtes de ler, parei corri até a cozinha, peguei meu maravilhoso café e voltei para o micro.... Meu café me ama muito...é meu primeiro caso de amor quando acordo...tomo um, acendo um cigarro, minutos depois tomo outro e mais um cigarro...esse amor incondicional pelo cafezenho em jejum logo ao acordar faz parte de um romance...que sonho mais lindo...sonhei.. Gosto dele quente e doce e para esse orgasmático relacionamento, ele me pede o cigarro assim que o sinto na boca. Se essa pentelhinha aparecer por aki eu vou mandar o bispo Edir Macedo falar assim para ela: SAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII KAPETAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

Anônimo disse...

Mari, como explicar a uma criança as delícias que fazem mal? rsss um beijo

Helô disse...

Eu não quero ser estraga prazeres de fumante algum, muito pelo contrario!! Também tenho meus vicios, inconfessaveis!! hehehehehehe Mas , veja bem mas....quem sabe esta menininha não seria um anjo enviado para lhe previnir dos maleficios do cigarro!! Pode até não ser..mas que a moça se sentiu acuada e pressionada sentiu..como se tivesse fazendo algo escuso..Pode me chamar de "Alice", mas acredito em anjos..Bjos minha linda e não esqueça..nunca é tarde para parar..

Juliana disse...

Mari, como vc sabe, sou fumante. Mas, diferentemente da maioria, tenho uma relação monogâmica com o cigarro. Acredite: não bebo café! Vergonhosamente, curto meu cigarrinho sem a companhia de outros, como o café. Não preciso de desculpas para acender um cigarro! Mas, se uma criança questionar este ato, serei obrigada a revelar a contradição entre a minha ação e o juízo que faço dela. Bj

Regina disse...

As atrações nem sempre são saudáveis, pode expressar uma relação doentia - o café e o cigarro sabem bem disso. Mas como qualquer outra fixação, só mesmo o despertar do próprio sujeito para que se dê o rompimento.