terça-feira, 16 de setembro de 2008

Crônica 18: A NOTÍCIA

Mais um dia de trabalho. Mais um dia de histórias. De vidas cruzadas. Assuntos levantados. Dessa vez o fato chegou até mim. Mas aconteceu bem longe do meu ambiente. Meu lar. “A tecnologia é uma maravilha”, diriam alguns. Mas a humanidade anda decepcionando. Diz um simples café.

Entra um senhor. Parece tranqüilo. Procura uma mesa. Escolhe bem. Decide-se pela mesa do canto. Acomoda-se. Pede uma xícara de café. Coloca o celular sobre o tampo. Ao lado do açucareiro. Ele usava uma pochete. Que é delicadamente depositada na cadeira ao lado.

Devia ter passado em alguma banca de jornais antes. Tinha um jornal diário e uma revista semanal em suas mãos. É. Quando eu cheguei, ele havia acabado de abrir a página de cultura. Adoro. O ser humano ainda não inventou nada melhor que a cultura.

Em seguida fomos para a parte de economia. Aí a coisa começa a se complicar um pouco mais. Enfim. Fomos lendo todo o jornal. Na ordem dele. Óbvio. Muita notícia triste. Coisas feias. Maldades. Medo. Porém, infelizmente, nada de anormal.

De repente mais uma página virada. Um barulho ensurdecedor. Considere o meu tamanho. Uma ventaria descomunal. Uma sacudidela. Consegui ler. Fiquei aterrorizado. Dois irmãos pequenos foram assassinados pelo pai e a madrasta. Não bastasse, foram cruelmente esquartejados.

Esfriei. Continuei lendo. As duas crianças haviam pedido socorro aos órgãos competentes. Silêncio. Foram levados pelas mãos ao pai. Foram executados na mesma noite. Triste? Não é triste. É impensável. Injustificável. In. In. In.

Não poderia deixar de trocar minha indignação. De colocá-la aqui. Primeiro. O pai ter este tipo de atitude com seus filhos. Louco. Monstro. Contudo, Louco. A madrasta. Totalmente insana. Descompensada. Ciumenta. Agora, a Conselheira Tutelar... Representante do poder civil. Sã. Responsável por seus atos. Negou ajuda. Julgou errado.

A humanidade está cada dia mais insensível. Menos atenta às sutilezas. Nesse caso às não sutilezas. Talvez, casos como esses tornem homens e mulheres desconfiados em relação ao próximo. Quiçá apenas por precaução.

Porém, todavia, contudo, um café, apenas um cafezinho. Aquele de todo dia. Ainda não perdeu a capacidade de se indignar. E deseja a todos que estão lendo estas poucas linhas que nunca a percam também. Desejo a vocês sempre menos. Menos arrogância. Menos indiferença. Menos insensibilidade. Menos medo. Menos páginas policiais nos jornais. Menos descaso. E, conseqüentemente, menos violência.



Mariana Primi Haas - MTB 47229 
Setembro/2008

9 comentários:

Eloyr disse...

Mari, realmente, pouco a pouco, estamos perdendo a nossa capacidade de indignação frente a tanta miséria, violência, corrupção. Precisamos acordar para isso o quanto antes. Li esta semana que o cineasta (entre outas coisas) David Linch está lançando no Brasil um livro sobre Meditação Transcendental, que segundo ele é a saída para que o ser humano se transforme em algo melhor. Será? Na verdade não tenho muita paciência pra isso, contudo é algo para se considerar. Ainda, a cultura realmente foi a melhor coisa inventada pela humanidade. Beijo. Loy

vera disse...

È sempre muito bom saber que o ser humano ainda fica indignado com tantos acontecimentos cruéis.E será que os homens que cuidam das leis também ficam? Minha menininha, como sempre você consegue exprimir tudo o que vai no íntimo de cada um que ainda acha que a vida vai melhorar.Parabéns!Beijos,

Helô disse...

Mari, não consigo colocar em palavras minha indignação, revolta,impotência diante deste caso. Você esta certa, o que não podemos e ficar calados diante de tanta violência gratuita, ademais com a anuência dos orgãos que entre aspas se dizem competentes.O que dizer?? Pobres seres indefesos estas duas crianças, que por este plano terreste passaram, apenas para quem sabe deixarem uma pergunta no ar, até onde vai a intolerancia, até onde vai o descaso, até onde vai o desamor?? Enquanto não temos a resposta, vamos tomar um cafezinho, para tentar amenizar e a alma esquentar!! Bjos

Joana disse...

Temos ainda capacidade de indignação frente a tanta atrocidade, Aonde está o poder público? Tratam o ser humano com burrocracia, como se fossem simples papéis que devam ser arquivados. Mari , teria muito a dizer, mas vc o disse através deste maravilhoso cafezinho. Está cada vez melhor. Parabéns! Beijos

Regina disse...

Cafezinho engajado e sensível, aquece e nos faz refletir.

Tally disse...

Enfim... Coisas que pessoas normais - dentro do possível - não conseguem entender. Dizem que há motivos pra tudo, q tudo acontece por x ou z. Eu não entendo muita coisa...

Elaine disse...

Mari, me perdoe mais não tenho tido tanto tempo para passar por aqui. Você pautar em fatos decorrentes do dia a dia foi formidavel e reflexivel. Parabens!

luiz galvão disse...

"SEJA A MUDANÇA QUE VOCÊ QUER VER NO MUNDO" GANDHI

Durval Silva Filho disse...

Pois é Mariana Light, seu texto de 16/09/2008 nos remete à loucura da humanidade: pais matando filhos, filhos matando irmãos e avós... Meu Deus, se esse for o preço do progresso, estou fora! Caminhamos para um mundo onde a palavra segurança não existe mais, nem dentro de casa. Sinceramente, tenho muito medo do futuro. Porém, ainda acredito num DEUS! E é nele que deposito minha confiança. Beijos...