segunda-feira, 13 de outubro de 2008

CRÔNICA 22: O PRESENTE

Domingo. Dia das crianças. Parece que o dia abriu depois de um longo período de chuvas e dias cinzentos. Junto com o dia abriram-se também diversos sorrisos de crianças contentes em ganhar seus presentes. A minha cafeteria se encheu. Crianças. Papéis de presente. Pais. Irmãos.

Em uma das minhas melhores mesas se sentou uma grande família. E eram primos e primas de aproximadamente 7 anos. Uma farra. Vinham de um almoço e resolveram me visitar. As crianças optaram por refrigerantes e doces. As mulheres decidiram-se por chá. Os homens ficaram no suco.

Apenas um quis minha deliciosa presença. Talvez tenha me sentido deixado um pouco de lado, mas importante é que estava lá. Confesso que não tenho muita paciência com crianças. Quase fui ao chão duas vezes. Fui sufocado com papéis de presente. Meu degustador mal conseguiu me saborear com a atenção que mereço. Mas o dia era delas.

Em compensação nada paga ver uma criança sorrir. Ver a alegria brilhar quando ela ganha aquilo que quer. Pode ser algo aparentemente sem importância nenhuma. Mas para ela é um tesouro. Que delícia.

Tudo lindo. Mas eu já estava louco para voltar para o balcão, quando o meu apreciador resolveu ir embora. Ufa! Chamou a garçonete.

- Por favor, senhorita!

Nada. Ele esperou uns dez minutos. A casa estava cheia. Havia poucos atendentes. Quando finalmente ela chegou. Anotou algumas coisas em seu computadorzinho de mão e entregou um cartão para o homem.

- Sua comanda senhor!

Era preciso pagar diretamente no caixa.

- O que? Além de esperar por você, ainda terei que pegar aquela fila? Em pleno domingo?

- Nós funcionamos assim, senhor, desculpe...

A mulher segurou o braço do homem. Delicadamente. Para que ele se acalmasse. Mas seu rosto foi ficando vermelho. Sua voz num tom nada agradável. Pedante. Empurrou a cadeira com força. Dirigiu-se ao caixa.

Permaneceu na fila por dois minutos. Voltou. Pisava firme. As mãos na cabeça.

- Vamos embora!

Ele não pagou a conta. A fila era grande. A mulher lembrou-lhe da necessidade de quitar o que haviam consumido.

- O que? Fui mal atendido e ainda tenho que ficar na fila para pagar a conta? Tenho mais o que fazer! Vamos embora. – Recolheu os presentes. As crianças e todos seus parentes o seguiram calados. Ninguém voltou para acertar a conta.

Fiquei paralisado. Vendo a garçonete entrar em pânico. O gerente ir atrás do homem. As outras mesas comentando. E, principalmente, pensando. Será que este foi um bom presente para seus filhos e sobrinhos?

Provavelmente se tornarão pessoas que desconsiderarão o trabalho dos outros. Egoístas. Definitivamente, este não é um bom presente para se deixar. Os brinquedos vão quebrar. Acabar. Mas o legado deixado pelos pais se perpetuará e se reproduzirá. Que péssimo presente...



Mariana Primi Haas - MTB 47229 
Outubro/2008

7 comentários:

Urbano Lemos disse...

Mari, muito bom o texto. Nada como falar das crianças, futuro do nosso país... Parabéns. Um abração Urbano Lemos
Urbano Lemos

Luiz Galvão disse...

É verdade. O que adianta crianças terem o privilégio de estarem numa cafeteria tão chique e cheias de presentes. Além de serem grande minoria neste país, essas, que presenciaram tal comportamento, tiveram um péssimo exemplo. Isso nos faz refletir sobre a real importância do dia das crianças. Presentes, presença ou consciência? Muito bem escrito seus textos amiga.Parabéns.

Junia disse...

Estou amando seu personagem, o café! Li algumas crônicas, mas já sou fã do mocinho. Até por que sou apaixonada por um café preto e puro, sem açúcar, quando muito acompanhado por uma espuminha de leite! Parabéns, menina! Vida longa ao "historiasdeumcafe"! Um beijo!

Neide Fernandes disse...

Que pessoa desagradável... Uma pena esses exemplos para nossas crianças.

Regina disse...

Pois é, se "ele" se posicionou assim num dia de descanso, de desestressar, imagine no dia-a-dia. Por essas e outras que não tem que haver dia disso, dia daquilo, dia daquilo outro, respeito não tem dia certo - sem querer bancar a politicamente correta chata - mas é assim.

Pedro Lisboa disse...

Muito bom seu blog, Parabéns! Sucesso!

vera disse...

O exemplo é tudo na vida de todos,principalmente de uma criança.Será que tantos problemas que vemos atualmente não ocorrem por falta de exemplos? beijos,