terça-feira, 4 de novembro de 2008

Crônica 25: O CATADOR DE PAPÉIS

Ai ai. Mais um dia começa. Movimento insano. Pessoas falantes. Mesas para atender. Cachorros latindo. Pessoas chatas. Pessoas legais. Tristes. Felizes. Ocupadas. A passeio. Enfim, a vida recomeça com seus tropeços cotidianos. Algo muito interessante me aconteceu ontem.

Um homem. Chiquérrimo. Um jornal. Um cachorro. Homens, normalmente, quando sentam sozinhos sempre trazem consigo algo pra ler ou um computadorzinho portátil. Qualquer coisa que mostre que eles estão muito ocupados. É como se sentissem culpa por estar ali, à toa, apenas curtindo um fim de tarde, na companhia de seu café. Serve também como um escudo. Para que ninguém os incomode. Muitas vezes imagino que vou pegar um deles com o jornal de cabeça pra baixo...

Este homem sentou-se. Amarrou Donato (Dinho para os íntimos) na cadeira. Pediu água para o cachorro. Era um bichinho especial. Usava rodinhas no lugar das patas traseiras. Como uma cadeira de rodas. E, por último, abriu seu escudo protetor, o jornal. “Assim não serei incomodado”, pensou.

Fora dos meus domínios, no meio da rua, vinha devagar um catador de papel, com seu carrinho e, em cima do monte de papelão recolhido, um simpático vira-lata. Muito atento. Quando o catador de papéis viu Donato. Parou. Sensibilizou-se. Não agüentou.

- Senhor, com licença... Desculpe incomodar...

O homem que havia acabado de dar um gole em mim – expresso e sem açúcar – me depositou no pires. Nervoso por aquela invasão. Olhou bem o outro e respondeu:

- Pois não?

- Gostaria de parabenizá-lo!

O homem dobrou o jornal. Sem entender. Talvez um pouco assustado.

- Como assim?

- É. Gostaria de parabenizá-lo. Por amar tanto seu cachorro. Por lhe ser tão dedicado. Como ele chama?

- Donato

- No albergue onde eu ficava – quando ainda era permitido cachorro em albergues – tentaram matar meu companheiro. Apenas porque ele latia. Pode um negócio desses. Eu fui muito claro. Avisei o meu compadre: se encostar um dedo nesse cachorro, você é quem morre! “Tô” certo, não “tô”??

- Claro que sim! – respondeu o homem cada vez mais interessado na conversa. Dobrou o jornal e colocou-o ao meu lado, na mesa.

- Pois é! Nunca mais fiquei em albergue. Agora, nem dá, não permitem mais a entrada de cachorros. Vou te falar... Esse cara aqui é meu companheirão! Vai comigo pra tudo que é lugar. Se alguém tenta encostar-se a mim enquanto durmo, ele faz o maior furdunço. Salvei-o de um dono violento. Cachorro sabe o que é gratidão. Eles, sim, sabem amar.

O homem que estava comigo em suas mãos começou a entender aquele sujeito. Ele trouxe palavras interessantes para seu dia reflexões.

- Bom, senhor, vendo-o com esse cachorro – machucado – entendo que o senhor não quis matá-lo. Ama-o como ele é. Ele é para o senhor exatamente o que o meu amigo aqui representa pra mim. Alguém da família. Ele é a minha casa. Parabéns!

E saiu. Deixando o homem, eu e Donato pra trás. Voltei à mesa em uma versão mais quente e com leite. Reparei que meu companheiro de mesa não abriu seu jornal novamente. Ficou observando o homem com o carrinho e cachorro sumirem no horizonte. Era isso mesmo que Donato significava para ele. Companhia. Lar. Ele também havia salvado seu amigo. E seu amigo salvara-o igualmente. Seriam eternamente gratos. Um ao outro.



Mariana Primi Haas - MTB 47229 
Novembro/2008

7 comentários:

vera disse...

Que linda história! A amizade e o amor são fatores importantes em nossa vida Muitas vezes a amizade entre um cão e seu dono é algo sublime. beijos,

Junia disse...

Só quem tem um cachorro como companheiro e amigo pode entender o que esses seres de quatro patas significam na vida de alguém.

Tally disse...

fiquei com vontade de ter um cachorro, hahahah

Cristina disse...

GOSTEI MTO DO SEU BLOG

Fernando disse...

O verdadeiro amigo,ama em qualquer situação,a prova de amor se dá com atitudes,só sentimento é pouco. Vamos tomar um cafézinho? Como sempre vale a pena. Beijos Mil.

galvão disse...

Muito legal a crônica. Clara e objetiva.Esse cafezinho chama-se o Observador da existência humana. Num curto espaço "enquadra e analisa" personagens da vida real, grupos sociais e temas polêmicos da nossa sociedade. Vem de boa safra e teve ótima moagem. Saca até quando um homem pode estar num "escudo" na vida que se sente nervoso por "invasões". Porquê será que ele se interessou pela conversa? Parece tão chiquérrimo. Meio vazio talvez por só agora conseguir tal "reflexão". A mensagem partiu de um catador de papel. Cachorros com papéis invertidos. Porém cachorros. Sempre dignos de cuidados. Seria demagogo, ingênuo da minha parte dizer que esse sr, do alto de sua solidão e condição melhor de vida, pudesse adotar uma criança. Bem, essa é outra estória. Vira-lata não paga pau pra cachorro de raça. Mas pobre sim.

Fábio Reoli disse...

Você sempre irá me encontrar com um jornal ao lado da cerveja num fim de tarde... ou um bloco e uma caneta, decabeça pra baixo ou pra cima, assim como os pensamentos... beijo, gostei das suas crônicas...