terça-feira, 11 de novembro de 2008

Crônica 26: A Desconhecida

Uma jovem. Sentada tranquilamente. Acabando de devorar seu café. Ou seja, me devorar. Pronta para ir embora. Havia acabado de pegar sua bolsa, agenda, celular. Sem mais, aparece outra mulher. De uns quarenta anos. Bem arrumada e muito disposta a conversar.

- Janaína! Não acredito encontrar você! Menina deve ter um ano que não nos vemos!

Ela estava realmente exultante em encontrar-se com a outra. Janaína, por sua vez, não se recordava da “amiga”. Sua testa enrugou. Formaram-se linhas de preocupação e dúvida. Ficou com um ar perdido. Cada centímetro de sua face dizia, claramente, “quem é esta figura?”. Porém, diante do enfático assédio e, é claro, do fato de a outra saber seu nome não poderia ter outro gesto que não fosse o de retribuir-lhe o cumprimento.

- Oi! Faz tempo mesmo, hein!? Um ano? Como o tempo está passando rápido atualmente!

- Nem me diga, menina! – disse risonha a senhora.

- Pois é... – Janaína estava louca para sair dali... Sua próxima fala seria a despedida.

- Posso me sentar com você?

Era tudo que Janaína temia. Ela de fato não tinha outro compromisso. Mas daí a sentar-se e conversar com alguém que não se conhece, sobre assuntos tão desconhecidos quanto... Já era demais.

- Desculpe querida, estava de saída vamos combinar algo qualquer dia desses... Passe-me novamente seu telefone... – eu, vendo tudo de camarote, imaginei: “perfeito!”. Ela se saiu bem demais!

- Que pena! Anote ai... – passou o número e confirmou se a outra havia anotado corretamente...
Começou a chuva. Muita chuva. Uma verdadeira tempestade. A amiga apressou-se. Puxou uma cadeira, na qual, praticamente empurrou Janaína.

- Que chuva boa! Assim, poderemos matar as saudades!

- É verdade...

Janaína estava nitidamente incomodada com aquela situação. Sua amiga parecia não notar. Ou fingia? Pediram mais café. Com chantilly. Canela. Açúcar. Meu pai! Quem se incomodou fui eu. Até enjoei. Quanto doce. Enfim... O cliente tem sempre razão.

- Então... Como vai indo a vida? – já que a única solução era conversar com aquela mulher. O melhor seria um assunto genérico.

- Vai bem. Caí de cama há três meses. Um horror. Hoje é o primeiro dia que saio de casa... Nada é por acaso!

A animação da mulher parecia não contagiar Janaína. Ela discursou sobre toda sua vida, filhos, marido. Falou. Falou. Falou. Com certeza ela precisava conversar com alguém. Muitas vezes as pessoas precisam falar e não têm quem as escute. Escolhem o primeiro conhecido que vêem pela frente. E o monólogo rolando solto. Eu ainda estava intacto.

- E o Tobias? Que cachorro lindo! Meu Deus! A minha morreu, você soube?

Foi nesse momento que Janaína se recordou de onde conhecia a histérica senhora. Dos passeios matinais que costumava fazer com seu labrador no Parque Ibirapuera. E o assunto se estendeu. Meia hora, no mínimo. Até que a garçonete esbarrou na mesa. Vendo a aflição da garota, resolvi dar uma forcinha: tombei. A maior sujeira. As duas se levantaram assustadas. Foi a deixa que ela precisava.

- Nossa! Viu a hora? Preciso ir... Tobias está sozinho desde cedo. É uma pena mesmo!

E antes que a outra pudesse dizer alguma coisa, Janaína levantou-se, deu-lhe dois beijinhos, foi até o caixa e sumiu aliviada.

Fiquei eu e a senhora. Agora triste. Sua melhor amiga havia morrido. E, pelo jeito, não tinha muitas pessoas com quem conversar. Permaneceu ali. Parada. Olhando pro nada. Por um instante imaginou ter encontrado alguém que realmente a quisesse escutar.



Mariana Primi Haas - MTB 47229 
Novembro/2008

5 comentários:

Eloyr disse...

Das duas, uma. Ou as pessoas estão cada vez mais carentes e acham que qualquer conhecido é "amigo" e a necessidade de conversar leva a esta situação, ou a gente e conhece tantas pessoas mas não presta atenção em todas e acaba numa saia justa do tipo rsssss. O segundo caso é típico de baladeiros de plantão que "conhecem" deus e o mundo e não se lembram da maioria das pessoas a quem são apresentados (eu me incluo neste caso). Agora, se já é difícil lembrar das pessoas que convivem com a gente no serviço, nas escola, na padaria, no boteco, no café, imagine lembrar dos donos de 'pets' fora de seu "habitat" onde quem chama a atenção são bichinhos de estimação. Acho que a melhor saída é assumir o lapso de memória e perguntar:quem é você? De onde mesmo? Um Beijo Mari.

galvão disse...

Bem legal Mari...logo vc estará fazendo bons roteiros hein? Parabéns. Velcidade, tempo voraz...fugidio..ver ..ver ..ver..fazer..fazer...não há tempo para bom dia boa tarde boa noite...Será a velocidade um Deus? Como voar como a leveza da borboleta na nossa mente e espírito sem o stress coagulado da modernidade no coração ?

Fernando disse...

Parabéns Mariana.Mais uma vez me transportei para o seu texto.Pude sentir o drama,mas com sempre tudo pode acontecer num cafè,Beijos Mil.Fernando

Pedro Lisboa disse...

Maravilha, adorei seu blog. Parabéns.

Regina disse...

Sem arrogância, mas como Sarte acredito que o inferno são os outros... no que, através deles, posso enxergar em mim.E essa pessoa, sozinha à procura de companhia, me entristeceu...