sexta-feira, 23 de maio de 2014

Porque hoje é sexta-feira! Visite esse seu amigo e tome aquele cafe relaxante depois do trabalho!
O Cafezinho



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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Crônica 92: Fantasias. Sonhos. Imagens.


Estávamos ali. Como sempre. De repente, ela começou a observar seu rosto no reflexo do vidro à sua frente. E, por mais inusitado que pareça, admirou sua imagem. Enquanto me bebericava. Lentamente.  Pensando no que via. Era uma mulher arrumada. Talvez o cabelo pudesse estar mais ajeitado. Mas ninguém pode estar perfeito todos os dias. Desculpou-se pelo desleixo. Distraiu-se. Retirou o jornal de cima da mesa e continuou lendo. Mas, foi por pouco tempo.

Sem mais, pegou a si mesma num flagra. Olhou-se no espelho lateral. Viu sua imagem. A minha e do jornal. Pensou: que cena interessante. Luz adequada. Parecia uma fotografia enquadrada. Daquelas que quando vemos pensamos: o que estaria acontecendo naquele momento? Quem é aquela pessoa? No que ela estaria pensando?

Parou novamente. Quem é aquela mulher? Não sabia responder. Começou a imaginar possibilidades para ela mesma. E, sem mais, sua imaginação se mesclou à sua realidade. Sim. Histórias quede tão fantasiosas, pareciam ter saído de um livro de Cortázar. Mas eram reais. E seu protagonista era ela. Não aquela do espelho. Era ela. A que estava sentada comigo.

Fez mais um intervalo. Olhou ao longe. Tomou uma xícara inteira do seu cafezinho favorito. Eu. E voltou a analisar-se. Que interesses tem essa mulher do espelho? Por que ela está sozinha numa quarta-feira à noite? Apenas acompanhada por seu fiel escudeiro, o Cafezinho... E assustou-se com as suas respostas. Ela não sabia quais os seus interesses. Não sabia por queestava ali, sozinha. Afinal, nunca fora uma paladina da solidão. Não enquanto necessidade básica.

Percebeu que lia o jornal sem se aprofundar em tema algum. Apenas lia. Em alguns momentos sorria. Em outros se indignava. Mas nada daquilo a tocava. Ela queria muito. O que por vezes pode ser bastante problemático. E foi ali. Juntinho de mim. Que descobriu quem era e o que desejava para o seu futuro. E descobriu que apenas não sabia como fazer. Como colocar seus planos em prática. Foi naquele instante que teve o maior encontro que poderia ter. Consigo. Imagem. Corpo. E alma. Puderam se juntar novamente em um único ser. E agora ela correria. Muito. E faria acontecer tudo que sempre sonhou. Apenas não tinha tido coragem de sonhar.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Crônica 91: 1000 a Zero para a Abelha

E o mundo por mais urbanizado que seja, continua sendo o mesmo mundo de sempre. Bichos e plantas fazem parte do cenário mesmo nas maiores metrópoles. Não tanto quanto gostaríamos, é verdade, mas ainda fazem parte. E são os mais variados. A começar pelos mais fofinhos e adestrados. Cães. Gatos. Passando por animais selvagens como araras. Tartarugas. Papagaios. E, por fim, os mais nojentos. Temerosos e evitados. Ratos. Baratas.
Estávamos sentados em uma das mesas. Era cedinho. Aquele calor pavoroso ainda não se apresentava. Ela estava arrumada. Salto alto. Maquiagem. Bolsa. Pasta. Jornal nas mãos. Eu estava expresso. Forte. Com espuminha. E, o mais importante, doce.
Era apenas mais um início de dia. Essa minha amiga é daquele tipo fiel. Vem todos sempre. Ela gosta de começar o dia comigo. Já a ouvi comentar: “sem o meu cafezinho, meu dia não começa”. Ai, fiquei super. Hiper. Ultra feliz. Ainda mais em épocas com esta em que estou parcialmente abandonado.
Voltando ao assunto. Em determinado momento, ela colocou o jornal sobre a mesa. Levantou-se devagar. Ajeitou a roupa e seguiu até o toilete. Eu fiquei por ali mesmo. Esperando. Como de costume. De repente, vi um daqueles bichos que a gente evita vindo direto para cima de mim. Sim. Uma abelha. E eu ali. Sem poder fazer nada.
E, puft. Ela caiu pra dentro. Nadou. Mergulhou. Ficou toda lambuzada de mim. Foi até lá o fundo. E... Encontrou... O Sr. Açúcar. Nesse momento, minha amiga querida voltou. Aparentemente estava tudo normal, já que a abelha estava camuflada no meu líquido escuro. Ela não viu. Sentou. E deu um gole em mim.
Chegamos à parte estranha da história. A abelha, num esforço “sobrehumano”, pulou do fundo da xícara. Passou pelo líquido quente. Entrou na boca da minha amiga. E... é isso mesmo. Picou a parte interna do seu lábio superior. Minha amiga. Uma das poucas que têm me visitado nesse verão. Saiu de lá com a boca inchada. Dolorida. Com um ferrão nos lábios. Que coisa...

Por sorte ela não ficou com raiva de mim. Continua vindo me ver todos os dias pela manhã. Ainda está com a boca bastante inchada. Mas, reparei que ela adquiriu um novo hábito: checar a xícara com a colherzinha, sempre, antes de bebericar meu conteúdo... Vai que...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Crônica 90: Esperando o Outono Chegar!


Sabe, sou um café. Brasileiríssimo de origem. Sei que sou muito querido no meu país. E tenho o hábito de transformar momentos difíceis em fáceis. Procuro ver o lado interessante das coisas. Gosto, até mesmo, daqueles clientes mais chatos e arrogantes. Consigo conviver até com os adeptos do café descafeinado... Arrrrg... Uma contradição por si só, não?

Mas preciso confessar que ando bastante descontente nestes últimos meses. Alguém sabe o porquê? Eu explico. Minha casa anda cheia de gente. Crianças, jovens, cachorros, adultos, velhos. E eu só vejo e acompanho todos de longe. Muito longe. Não posso ouvir suas histórias. E, consequentemente, estou há muito tempo longe dos meus queridos amigos.

Isso dói, sabe? Às vezes eles pensam em pedir um drink gelado de café. Aí eu me animo todo. Mas, invariavelmente, desistem e optam por algo mais fresco. Um suco. Uma cerveja. Água. Estou perdendo espaço para a água!

Dia desses, estava eu lá, entediado. No meu balcão. Eu e minhas colegas xícaras. Tristonhos. Conversávamos apenas sobre futilidades. O tempo. Uma notícia ou outra na tv. O calor (claro). A falta de chuva. Conversinha mais chata, "sô"!

Bom, sentaram-se dois amigos. Uma moça e um rapaz. Os dois com um gosto um pouco duvidoso para se vestir. Ela usava roupa curta demais. Justa demais. E ele, uma bermuda que deixa a b... de fora e cobre apenas metade da perna. Toda desleixada. Um negócio horroroso. Mas meu amigo, mesmo que mal trajado, estava querendo minha companhia.

Euzinho, lá do balcão, me empolguei todo. Já avisei as meninas. "Opa! vamos dar uma voltinha pelo salão". "uhuuuuu" – gritaram em uníssono. No entanto, no momento em que o rapaz falava com o garçom, sua amiga "piriguete" disse: "Ai credo! Vai tomar café nesse calor? Não acredito!". O garçom, sem saber bem o que fazer, sugeriu uma das opções de drink gelado. Mas a mocinha... "Não! Nada de café! Só de pensar em café me dá calor!!!!!".

O menino, um tanto quanto sugestionável e indeciso, diz: "é verdade... melhor um copo de suco de melão". Ah, fala sério. Ele trocou o delicioso sabor de um café bem passado. Por um suco de melão? Melão tem gosto de que? Existem especialistas no meu sabor, no meu aroma. Alguém é especialista em melão?”. Nossa, as meninas murcharam novamente suas asinhas. E eu, bom, eu fiquei ali. Quieto. Esperando que alguém quisesse dividir seu dia comigo. Voltei das minhas férias super frustrado. Esperando o outono chegar... Mas, vai chegar e eu sei que vocês vão voltar!

Sempre seu!
O Cafezinho!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Crônica 89 - Entre Seguranças, Incertezas e Ironias




 
Aquela era uma mesa animada. Cheia de gente. Todos jovens. Cheguei ao final da conversa. Junto com a conta. Quem me chamou foi um rapaz muito bonito que conversa com outro nem tão bonito assim. Mas tinha lá seu charme. O assunto era orientações sexuais.

- Nunca entendi por que alguns caras não aceitam ter amigos gays. Eu tenho um monte e gosto de mulher. Isso não me incomoda em nada... - Dizia o mais garboso dos amigos.

- Também nunca entendi.

- Deve ser insegurança... Só pode...

- Ah é. Eu mesmo sou tão seguro da minha orientação que não tenho medo nenhum. Tenho amigos gays, heteros e tudo bem. Gosto dessa diversidade.

- É assim que tem que ser. Só assim para entender o mundo de forma mais completa.

- Sou tão seguro que até já fiquei com outros homens, sabe? E nada mudou pra mim. Continuo heterossexual como sempre fui!

Ooops... Momento de silêncio. Nosso amigo mais bonito ficou um pouco confuso. Não sabia muito bem o que dizer. O rapaz passou as mãos nos cabelos. Olhou pro seu interlocutor. Deu gole em mim. Como se procurasse uma inspiração. Devolveu-me ao pires, minha zona de conforto. E em seguida disse com um leve sorriso de canto de boca.

- É, amigo, isso que é segurança...!

Conta paga. Todos levantaram. Foram embora. E eu fiquei. Dei uma irônica risada de café. Meu amigo querido e companheiro, talvez você não conheça minha risada. Mas acredite, ela existe. O que dizer? Esse cafezinho ouve cada uma...
 
 Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
 Dez2013
 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Crônica 88 - Entre bochechas rosadas e línguas de fora


Não sei se comentei. Mas, agora há no meu café um espaço dedicado aos cachorros. Fica do lado de fora do café. Assim, além de se sentar à mesa com seu pet, o cliente também pode sentar em uma das poltronas espalhadas sobre um amplo gramado e deixar seu bichinho solto. E é claro eu também sou servido lá. Até porque, é um espaço aberto onde fumar é permitido. Faço o maior sucesso. Eu e o cigarro somos amigos de longa data, vocês sabem, né?

Nesse dia, eu estava lá tranquilo. Fui convidado por uma grande amiga. Frequentadora antiga. O cãozinho dela é um pouco hiperativo. Já me derrubou algumas vezes com o seu agitado rabinho. Mas é um fofo. Parece de pelúcia.

Estávamos lá, sossegados, quando de repente entra um bebê. Tinha pouco mais de 2 anos. Ele vinha segurando no dedo da mãe. Um pouco cambaleante pela inexperiência em andar. Muito risonho. Dava aquelas risadas que só os bebês têm. Na sua camiseta lia-se: "Eu amo meu cachorro e o seu também".

Houve uma aproximação delicada. O cão e o bebê tinham mais ou menos a mesma altura. O que encantou ainda mais a criança. Fiquei com medo. Sabe como é criança. Pra fazer carinho elas batem. Puxam o rabo. A orelha. Mas nem a mãe, nem a dona estavam preocupadas.

E foi incrível. Foi tanto rabo. Tanta mão. Tanta lambida. Tanto beijo. Já não se distinguia mais quem era a criança e quem era o cachorro. Rolaram no chão até ficarem exaustos. Deitaram ali mesmo. Na grama. Deitaram com cumplicidade.

Cada um com a cabeça para um lado. Mantiveram patinhas e pezinhos encostados. A mãe e a dona tiraram fotos e mais fotos. Um com bochechinhas rosadas. O outro de língua de fora. Os dois igualmente felizes e... Cansados.

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
 Dez2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Crônica 87 - Entre gravatas vermelhas e uma opinião

Mais um dia começa. E o meu pessoal começa a chegar. Limpa. Cozinha. Arruma. Na cozinha o radinho de pilha está sempre ligado em alguma estação AM. Ouço notícias. Desgraças. Histórias. Previsão do Tempo.
Logo chegam meus primeiros clientes. Dois amigos. Dignamente arrumados. Terno preto. Gravata vermelha. Cabelos engomados. Sapatos envernizados. Suspeito que seja algum tipo de uniforme.
Todos os dias, às 8 horas em ponto, eles sentam em uma mesa quadrada. Sempre a mesma. Como num balé, colocam as pastas brilhantes na cadeira vazia. Abrem as pastas. Retiram os celulares. Checam notícias. Emails. Redes sociais. E, finalmente, colocam os aparelhos sobre a mesa. Já disse em outras oportunidades que não gosto destes aparelhinhos. Me incomodam. Vibram. São chatos.
O rapaz mais magro estende a mão para o alto. Estala os dedos e o garçom já sabe o que eles desejam. Um café, um suco de laranja e dois pães com manteiga na chapa. Enquanto me arrumo na bandeja, ainda sonolento e preguiçoso os dois iniciam uma tímida conversa. Insossa e sem graça. O chamado papo de elevador.
Invariavelmente, o primeiro tema abordado é o tempo. Por incrível que pareça o rapaz mais rechonchudo sempre reclama. "Nossa, hoje tá muito quente" ou "Credo, que frio é esse?" ou ainda "Esse tempo ameno? Não se sabe se está frio ou calor, não gosto".
O magrinho apenas ouve. Concorda com tudo. O próximo assunto é o café. Sim, eu mesmo. Tem gente muito cara de pau. E o gordinho é um desses, sempre reclamando de mim. "Está me queimando de tão quente". "Mas o que é isso? Veio gelado". "Pouco leite". "Muito leite". E por aí vai.
- O pão está bom? - pergunta o nosso esguio e calado amigo.
- Sim. Podia ter mais manteiga. Está um pouco seco. Mas dá pra comer.
- Hum... Que bom - responde o outro virando um pouco os olhos e soltando um discretíssimo suspiro.
Por último há sempre uma piada sem graça. Da qual o magrinho ri muito e o gorduchinho acredita que é bom em anedotas. Nesse dia o mais silencioso dos dois resolve falar:
- Nossa, Renato, estou tão cansado hoje. Acho que dormi mal. Sabe quando você já acorda cansado? Vai ser um dia daqueles, nem começou e eu já quero que termine.

- Credo Álvaro! Vai procurar um psicólogo, cara! Você reclama demais! Não dá pra apenas agradecer o trabalho que tem? Eu, hein?

Mariana Primi Haas - MTB 47229                                                                                                                                        
 Dez2013