segunda-feira, 7 de julho de 2008

Crônica 6: Sobrancelhas

O inesperado. Tem coisa melhor que o inesperado? Eu, pessoalmente, acho que o fator surpresa é o que há demais especial no cotidiano dos seres humanos. Esse era um dia comum, um dia qualquer no cotidiano deles. Ao menos era o que eles imaginavam.

Estava frio. Era um momento especial para um café quentinho. Sentei-me junto aquele jovem. Um rapaz bonito, simpático, muito educado. Recebeu-me muito bem em sua mesa. Aqueceu suas mãos em minha xícara. Sentiu meu aroma. Pediu licença com a colherinha e mexeu o açúcar que havia acrescentado.

Quando terminou seu ritual de preparação, degustou-me. Pude perceber que ele aproveitou cada grão moído e coado. Cada nuance de meu sabor. Ele estava ali apenas para se aquecer em meus braços. Após o primeiro gole, olhou para o lado, observou as outras mesas e apenas relaxou de um dia exaustivo. Quieto. Sozinho.

Ela estava sentada bem ali. Numa mesa muito próxima. Estava tranqüila. Traindo-me, Tomava um chá e lia um livro. Sua tranqüilidade intrigou-lhe. Deixou nosso apreciador de café curioso. Quis saber o que havia naquele livro que fazia com que ela deixasse o mundo a seu redor e mergulhasse naquele outro ambiente. O ambiente da imaginação. Da fantasia.

Fixou seu olhar naquela moça. Comum. Mas atraente, justamente por seu distanciamento da realidade. Ela notou. Ao levantar seus olhos do livro – e lembrar-se de onde estava – a moça encontrou-se com duas grossas sobrancelhas fixadas nela. Degustando-a. Apreciando-a.

Sorriu. Ela adorou a sensação de ser observada. Ser lida. Era como se ele estivesse decifrando sua alma. Ela gelou. De repente, não conseguiu mais se afastar do ambiente real. Não podia distrair-se daquelas sobrancelhas. Ele precisava conhecê-la. Fez um leve gesto com a cabeça e silenciosamente cumprimentou-a. A leitora, por sua vez, respondeu seu gesto com um largo sorriso.

Quando dei por mim, já estava nas mãos do homem, viajando até a mesa da frente e sendo colocado, cuidadosamente, ao lado de um livro. Poesias. As grossas sobrancelhas e o lindo sorriso conversaram por horas. Um instante. Uma eternidade. Mas até a eternidade de um momento de descobertas – de desvendamento – acaba.

Tiveram um fim de tarde mágico. Reconheceram-se no outro. Os dois se levantaram juntos. Foram embora. Talvez se encontrassem mais tarde. Talvez se vissem outro dia. Talvez se casem, tenham filhos. Mas, o mais provável é que não se vejam mais. Que esse momento fique na memória deles. Preservado com carinho. E aquela sobrancelha e aquele sorriso jamais se separem e jamais vivam outra eternidade como essa. Essa é a maravilha da surpresa: ela não se repete. Caso contrário, deixa de ser surpresa.


Mariana Primi Haas - MTB 47229 
Julho/2008

7 comentários:

vera disse...

Que história linda Será que a sobrancelha do curioso rapaz e a enigmática leitora foram felizes para sempre ou até... Parabéns! Você está cada vêz melhor.

Luiz Galvão disse...

Poxa, e eu que tenho uma baita sobrancelha? Onde fica esse barzinho e o gosto mágico desse café que ao degustá-lo eu teria essa miragem poética? Veria uma mulher viajando em suas fantasias e ao experimentar esse café perceberia minhas sombrancelhas fortes, castanho bem escuro, e de lambuja olhos azuis logo abaixo..rs...Sim, porque o "pote de ouro" mágico traz sorrisos, sobrancelhas, olhos e lábios, tudo ao mesmo tempo numa surpresa infinita, mas que talvez se eternize apenas na memória de um dia em que um café foi cúmplice de tal sonho de amor e vida.

Regina disse...

Estar vivo é enxergar todas as possibilidades que se apresentam... Adoro!!!

Tally disse...

lindo... me lembrou coisas, haha... é triste pensar q eles podem não ter se encontrado nunca mais... mas talvez fosse mais triste se eles tivessem se encontrado. certas coisas são melhores qdo deixam de acontecer... beijo!

Yara disse...

Que encontro gostoso!!!

Neide disse...

Que sensação maravilhosa: nos tirar do cotidiano, da realidade comum e nos envolver numa gama de sentimentos prazerosos e excitantes, especialmente pelo inesperado. Se repetirá? Terá continuidade? O prazer e a dor da incerteza...

André Alves disse...

Realmente o fator surpresa e o inesperado são maravilhosos, como ser pego por um beijo desprevenido.