quinta-feira, 10 de julho de 2008

Crônica 7: O Vendedor de Balas

Uma criança de apenas cinco anos. Inofensiva. Certo? Seria se não estivesse vendendo balas nos cafés. Ao menos é isso que algumas pessoas imaginam ao ver um menino vindo até sua mesa oferecer balas. Muitos recolhem suas bolsas, carteiras, guardam os celulares e sequer olham para o rosto do pequeno ser humano. Parado. Na sua frente.

Ele veio chegando bem de mansinho. Já havia passado por ali e sabia que naquela mesa não venderia balas. Mas outra coisa chamou-lhe a atenção: o pequeno e peludo poodle. Sim. Naquela mesa havia um cachorro. Todas as crianças que passam pelo simpático cachorrinho ficam encantadas. Por que ele não ficaria?

Mas teve medo. Medo de se aproximar e ser rejeitado. Como, provavelmente, já havia acontecido. Saiu. Voltou com seu irmão mais velho. Esse tinha sete anos. Aos poucos os dois vendedores de balas chegaram perto da dona do cachorrinho. Que medo.

- Moça... – falaram inseguros e em coro.
- Sim?
- Podemos passar a mão nele?

Que susto. A jovem dona do cachorro disse “claro! Mas antes dêem a mãozinha para ela cheirar. Assim ela não avança em vocês”. O medo passou. A mulher era gentil. E ali ficaram os dois por mais ou menos meia hora. Sentaram no chão junto ao animalzinho e brincaram. Brincaram muito.

Neste ínterim, o casal da mesa ao lado tremia. A senhora estava morrendo de medo daqueles dois sentados ali, tão perto dela. Quanta realidade.

- Você está vendo a mesma coisa que eu, José?
- Estou. Depois que formos assaltados ela vai achar engraçado deixar esses “bandidinhos” brincarem com o seu pet – respondeu o marido cheio de si.

Bandidinhos? Por quê? Eram apenas dois meninos de cinco e sete anos brincando com um cachorro fofinho. Que mal pode haver nisso? Tudo bem, antes eles estavam vendo balas de mesa em mesa... São crianças exploradas por suas mães... Pelas injustiças... Não estudam, nem se alimentam direito... Ainda não entendi em que momento ofereceram perigo. Quando, onde como e porque se tornaram “bandidinhos”.

É isso. São vistos pela sociedade como futuros bandidos. Talvez o sejam um dia. Talvez não. Como qualquer criança, não podemos saber o que serão quando adultos. Que vida terão. O importante é que, nesse momento, são crianças. Apenas crianças. Gostam de brincar com cachorros mansinhos.

Durante aquela meia hora - para os dois pequenos, eterna – eram somente meninos felizes. Mesmo que só por meia hora.

Um café expresso muitas vezes tem muita dificuldade em entender o ser humano. O único abençoado com a capacidade de raciocínio. Será que alguém que raciocina – pensa – nega meia hora de alegria a dois pequenos de cílios compridos e olhinhos esbugalhados? Talvez eu fique indignado justamente por não poder raciocinar... Deve ser isso...


Mariana Primi Haas - MTB 47229 
Julho/2008

7 comentários:

Tally disse...

Como diria a Morte no livro que eu amo horrores, "os seres humanos me assombram". Positiva e negativamente. O que importa se eles se tornariam bandidinhos ou bandidões? Eterna mania de atropelar as coisas, morrer de véspera. Naquela hora, eram duas crianças. Duas crianças. Com pleno direito de brincar com o poodle. Próxima, foi teu post mais tocante! Mesmo! Eu sou louca por crianças e acho que todas merecem a felicidade máxima possível. Até as que podem virar bandidinhos. Até a Emilinha, hehe... Beijos

Fernando disse...

Provavelmente o raciocínio do cachorro deve ser muito maior do que dessa senhora...tomara que ela engasge no seu proximo café...hehehe

Regina disse...

Será que se o Pitta ou o Daniel Dantas brincassem com o poodlezinho o "casal vinte" ficaria com medo? Da próxima vez Lucrécia Borgia deveria fazer um servicinho no cafezinho dele, do casal.

Luiz Galvão disse...

Dizem que os cetácios têm mais cérebro que o ser humano, há pesquisas que indicam que não estamos sós. Mas o cafezinho não entende muito bem de ser humano ainda, mas aprende..será? Difícil até para Deus.... O pré julgamento está nas prateleiras e mesinhas desse mundo desprovido de amor à cidadania. Restarão cidadãos? Balas são vendidas, perseguem e fazem curvas nas esquinas, caem como tormentas do Congresso, tornam ignorantes os que se enclausulam no preconceito de suas fortalezas em condomínios e matam e se alimentam da injustiça social. Balas são primeiro emprego para crianças, seja docinha ou com gosto de sangue de um celular novo, de um tenis de marca... Balas existem para se atirar. Atirar nesse casal. Evidente que não merecem as de calibre 12, mas de mel com miolo de porco no recheio. A pólvora como a hortelã encantam crianças. As balas com esses recheios estão nas mansões, favelas, ruas e, especialmente nos RPGs da vida "iclusiva". Nelson falou da Vida Como Ea é....

Neide disse...

Há algo mais sublime do que compartilhar de um momento de intensa alegria de uma criança? E todas são iguais nisto, até que a dureza da realidade as diferenciam a cada dia... O animal, evidentemente, vive muito melhor que a criança e não deve causar medo em ninguém...

angelica disse...

Mariana Nosso dia a dia às vezes nos faz esquecer ou seja , nem lembrar de dar importancia em atitudes , gestos ....de momentos....... que agora com seus " cafezinhos" nos dá o prazer saboreá-los com você.bjs, saudades !

André Alves disse...

Essa moça, além de gentil, é muito sensível e antenada com a realidade brasileira. Aposto que é bonita e talentosa tabém. É isso....